Reencarnação // 1980 — Hoje

O Psiquiatra que Não Queria Acreditar

Um chefe de psiquiatria formado em Yale hipnotiza uma paciente para encontrar um trauma de infância. Ela começa a descrever vidas que viveu séculos antes. O livro que ele escreveu tornou-se um dos mais lidos de sempre sobre reencarnação. Esta é a história real do caso — e do que a ciência encontrou quando foi verificar.

Espiritualidade & Mistério · 12 min de leitura
// Prólogo

Uma paciente, um gabinete em Miami

Em 1980, o psiquiatra Brian Weiss dirigia o departamento de psiquiatria do Mount Sinai Medical Center, em Miami Beach. Tinha um percurso académico impecável — licenciatura na Universidade de Columbia, curso de medicina em Yale — e uma formação que o tornava, nas suas próprias palavras, um cético. Nesse ano começou a tratar uma mulher de 27 anos a quem, no livro, chamaria Catherine: um pseudónimo para proteger a identidade real da paciente. Catherine sofria de ansiedade, fobias e crises de pânico que não cediam às terapias convencionais.

Depois de muitos meses de terapia convencional sem progressos, Weiss recorreu à hipnose, com um objetivo clássico: recuperar memórias de infância reprimidas que pudessem explicar os medos. O que aconteceu a seguir mudou a carreira do psiquiatra e deu origem a um dos livros de espiritualidade mais vendidos das últimas décadas.

✦ ✦ ✦
// O Caso

A hipnose que não parou na infância

Sob hipnose, Catherine não se ficou pelas memórias de criança. Começou a descrever cenas de outras épocas — vidas na Antiguidade e em séculos e lugares diferentes — com pormenores de roupa, paisagem e morte. Ao longo das sessões, Weiss registou referências a dezenas de vidas anteriores, de que uma dúzia foi descrita com detalhe.

Houve mais: entre uma "vida" e outra, Catherine passou a transmitir mensagens que atribuía a entidades a que chamava os Mestres — reflexões sobre a morte, o amor, a paciência e o propósito da existência. Segundo Weiss, algumas dessas mensagens continham informação pessoal sobre a sua própria família que Catherine não teria forma de conhecer.

E os sintomas de Catherine, segundo o relato do psiquiatra, foram desaparecendo à medida que as sessões avançavam.

!

A hesitação antes de publicar

Weiss conta que demorou anos a decidir contar o caso publicamente, com receio do efeito na sua reputação profissional. Quando finalmente o fez, em 1988, o livro chamou-se Many Lives, Many Masters — em português, Muitas Vidas, Muitos Mestres. Foi traduzido para dezenas de línguas e continua, quase quarenta anos depois, entre os livros de espiritualidade mais vendidos da Amazon em Espanha.

✦ ✦ ✦
// Uma Ideia Muito Antiga

Weiss não inventou nada — reencontrou

A ideia de que a alma regressa em corpos sucessivos é das mais antigas e difundidas da humanidade. Weiss limitou-se a trazê-la para dentro de um consultório de psiquiatria ocidental.

Índia · Upanixades

O samsara, o ciclo de nascimento, morte e renascimento governado pelo karma, está no centro do hinduísmo. O budismo herda a ideia de renascimento, mas com uma diferença subtil e importante: nega a existência de um "eu" permanente que passe de vida em vida.

Grécia · Séc. VI a.C.

Pitágoras ensinava a metempsicose, a transmigração da alma. O poeta Xenófanes deixou uma anedota satírica: Pitágoras terá pedido a alguém que parasse de bater num cachorro, porque reconhecera no ganido a voz de um amigo falecido.

Grécia · Séc. IV a.C.

No fim da República, Platão conta o Mito de Er: as almas escolhem a vida seguinte e bebem do rio do esquecimento antes de renascer — uma explicação, com 2.400 anos, para o facto de não nos lembrarmos de vidas anteriores.

França · 1857

Allan Kardec publica O Livro dos Espíritos e funda o espiritismo, em que a reencarnação é um processo de aprendizagem moral. O Brasil tornou-se o país com a maior comunidade espírita do mundo.

✦ ✦ ✦
// A Investigação Séria

O investigador que desconfiava da hipnose

Se há um nome incontornável na investigação científica sobre reencarnação, não é o de Weiss — é o de Ian Stevenson, diretor do departamento de psiquiatria da Universidade da Virgínia. Em 1966 publicou Twenty Cases Suggestive of Reincarnation ("Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação") e, ao longo de quarenta anos, documentou cerca de 2.500 casos. A unidade que fundou, hoje chamada Division of Perceptual Studies, continua a investigar o tema.

O método de Stevenson era o oposto do de Weiss. Não usava hipnose. Estudava crianças pequenas que, espontaneamente, falavam de uma vida anterior — nomes, lugares, formas de morrer — e tentava verificar essas afirmações junto de famílias reais, idealmente antes de as duas famílias terem qualquer contacto.

Uma experiência emocional intensa durante a regressão hipnótica não garante que tenham sido recuperadas memórias de uma vida anterior real. A "vida anterior" pode ser uma fantasia, como a maioria dos nossos sonhos.

— Ian Stevenson, sobre a regressão hipnótica (tradução livre)

Ou seja: o investigador que mais trabalhou para levar a reencarnação a sério considerava a regressão hipnótica — o método de Weiss — uma das formas menos fiáveis de a estudar. A razão é conhecida: sob hipnose, a sugestionabilidade aumenta de forma extraordinária.

✦ ✦ ✦
// O Caso que Correu Mal

Bridey Murphy e a vizinha do outro lado da rua

Trinta anos antes de Catherine, a regressão a vidas passadas já tinha tido o seu grande escândalo. Em 1952, no Colorado, o hipnotizador amador Morey Bernstein hipnotizou uma dona de casa, Virginia Tighe, que passou a descrever a vida de uma irlandesa do século XIX chamada Bridey Murphy, nascida em Cork. O livro The Search for Bridey Murphy (1956) tornou-se um fenómeno de vendas nos Estados Unidos.

Depois vieram os jornalistas. Descobriram que, na infância, Virginia Tighe tinha vivido em Chicago em frente a uma imigrante irlandesa chamada Bridie Murphy Corkell, e que vários elementos da "vida anterior" correspondiam a episódios da infância da própria Tighe. A explicação que a maioria dos investigadores aceita hoje tem um nome técnico: criptomnésia.

1

Criptomnésia — a memória que esquece de onde veio

O termo ficou associado ao psicólogo suíço Théodore Flournoy, que em 1900 estudou uma médium que descrevia vidas na Índia e em Marte. É o fenómeno em que recordamos uma informação — uma história ouvida, um livro, um filme — mas esquecemos a origem, e ela regressa com a sensação de ser uma experiência própria e nova.

✦ ✦ ✦
// O Laboratório

O que acontece quando se testa a regressão

Em 1991, o psicólogo Nicholas Spanos e a sua equipa publicaram no Journal of Personality and Social Psychology uma série de quatro estudos sobre regressão hipnótica a vidas passadas. Os resultados foram claros: as "vidas anteriores" que os participantes descreviam refletiam as expectativas transmitidas pelo hipnotizador. E o grau de credibilidade que os participantes davam às suas próprias experiências dependia de o hipnotizador as apresentar como reais ou como imaginadas.

Quatro anos depois, a psicóloga Elizabeth Loftus mostrou algo ainda mais inquietante, sem hipnose nenhuma. No estudo que ficou conhecido como "perdido no centro comercial", contou a 24 pessoas uma história falsa da infância delas — terem-se perdido num centro comercial aos cinco anos —, misturada com três episódios verdadeiros fornecidos pela família. Cerca de um quarto acabou por "recordar", total ou parcialmente, um acontecimento que nunca existiu.

A memória não é uma gravação. É uma reconstrução — e reconstrói-se melhor quando alguém em quem confiamos nos diz o que devíamos lembrar.

— Síntese da investigação sobre falsas memórias
✦ ✦ ✦
// Então, e Catherine?

O que o caso prova — e o que não prova

Nenhuma das vidas descritas por Catherine foi verificada de forma independente, com nomes, datas e registos que permitissem confirmar que aquelas pessoas existiram. A informação que surpreendeu Weiss foi relatada por ele próprio, sem registo público que permita a outros investigadores avaliá-la. Isto não significa que Weiss tenha mentido — significa que, cientificamente, o caso é um testemunho, não uma prova.

Mas há um ponto que os críticos raramente discutem: a melhoria de Catherine. Se as histórias foram fantasia, criptomnésia ou algo que ainda não compreendemos, a verdade é que dar forma narrativa a um medo — encontrar-lhe uma origem, uma morte, um fim — pode ter efeito terapêutico real. A psicologia conhece esse mecanismo bem: é a base de várias terapias narrativas. A história não precisa de ser literal para ajudar.

O que fica

A ciência não encontrou provas de que a regressão hipnótica recupere vidas passadas reais — e encontrou provas sólidas de que a hipnose e a sugestão criam memórias convincentes de coisas que nunca aconteceram. Ao mesmo tempo, a pergunta de fundo — se a consciência continua depois da morte — continua em aberto, e investigadores como Ian Stevenson dedicaram a vida a estudá-la com rigor. O caso Catherine vale como uma das histórias mais marcantes sobre essa pergunta, contada por alguém que começou por não acreditar.

✦

Vale a pena ler o livro?

Sim — desde que seja lido pelo que é: o relato na primeira pessoa de um psiquiatra cético confrontado com algo que não sabia explicar. Muitas Vidas, Muitos Mestres lê-se numa tarde, e as reflexões atribuídas aos "Mestres" sobre a morte e o amor tocam mesmo quem não acredita em reencarnação. Leia-o com o mesmo espírito crítico com que Weiss diz ter começado.

∞

Talvez não nos lembremos de outras vidas. Mas a pergunta sobre o que vem depois desta nunca nos deixou.

— Oraculuminus

Este artigo baseia-se em factos documentados: o livro "Many Lives, Many Masters" de Brian Weiss (1988) e o seu relato do caso Catherine; a obra de Ian Stevenson na Universidade da Virgínia, incluindo "Twenty Cases Suggestive of Reincarnation" (1966) e as suas reservas publicadas sobre a regressão hipnótica; o caso Bridey Murphy (1952–1956) e a investigação jornalística que se seguiu; o trabalho de Théodore Flournoy sobre criptomnésia (1900); o estudo de Nicholas Spanos e colegas no Journal of Personality and Social Psychology (1991); e o estudo de Elizabeth Loftus e Jacqueline Pickrell sobre falsas memórias (1995). O Oraculuminus apresenta este tema como reflexão sobre uma das perguntas mais antigas da humanidade, sem afirmar a realidade literal das vidas passadas.

Enquanto Afiliado da Amazon, o Oraculuminus recebe comissões por compras qualificadas feitas através dos links deste artigo, sem custo extra para si.

Comentários …

Só os membros registados podem comentar.

Partilhar este artigo

O universo tem mensagens para ti.

Consulta o oráculo, o tarot ou o teu mapa astral — gratuitamente.

Experimentar gratis

← Mais artigos do Blog